MEU JARDIM SECRETO

February 25, 2019

 

Após quatro meses na Itália, e após ouvir inúmeras pessoas insistindo que eu deveria ir a Verona, eu resolvi dar o braço a torcer. Não que eu não quisesse ir – obvio que eu sonhava em conhecer a tão famosa cidade de Romeu e Julieta (peça que eu já li pelo menos três vezes) – mas eu não queria ir sozinha. Se é que você me entende.

 

Onde está o príncipe encantado que eu espero que me convite – não penas isso, que insista – em me levar para uma das cidades mais românticas do mundo? Que demonstre amor e carinho e faça-me sentir especial? Não sei. Não encontrei onde moro, e nem na Itália. Por isso, conformei-me em ir sozinha mesmo – não sem antes tentar me boicotar dormindo até mais tarde e perdendo o primeiro trem.

 

Passei pela Porta Nuova, pela Basilica di San Zeno Maggiore,  pela Arena di Verona, pelo Castelvecchio, a ponte de Castelvecchio, o Duomo di Verona. Visitei a Piazza Erbe, a Piazza dei Signori, subi na Torre dei Lamberti (a vista da cidade pelo alto vale muito a pena)... Quando não havia mais o que fazer nas redondezas, cedi. Fui conhecer a famosa casa de Julieta.

 

Veja bem, eu sei que ninguém sabe com certeza se Julieta realmente existiu e muito menos se aquela foi a casa que inspirou Shakespeare. Fato é que casais do mundo todo vão ali colar cartas e post –its com juras de amor um ao outro, e pendurar cadeados representando o amor que ficará para sempre trancado em seus corações. E eu ia fazer o que ali? Tocar o seio de Julieta e pedir por mais sorte no amor? Deixar uma carta suplicando por alguém que me encha de carinho? Foi exatamente o que eu fiz – tirando a parte da carta, mas eu mentalizei o pedido, ao menos (mais que isso seria humilhação demais).

 

Ainda era cedo, e por isso resolvi cruzar o rio Ádige para ver a vista do Castel San Pietro – e que vista! Como era inverno, o sol já estava quase se pondo, e pude me emocionar com a vista dos telhados e torres de Verona iluminados pela sua luz dourada. Quando estava descendo a ladeira para voltar do castelo, vi uma placa indicando o Giardino Giusti à esquerda. Já era quase hora de eu pegar o trem para voltar à Milão, mas achei que ainda teria mais alguns minutos de sol e não quis desperdiçar. O trem eu poderia trocar, de qualquer forma.

 

Lá estava eu conhecendo o jardim e fazendo inúmeras selfies à “hora dourada” e com a vegetação verde ao meu redor, enquanto além de mim havia apenas mais um casal por ali, sentando juntos aos pés das estátuas, ela no colo dele, ambos se beijando. Resolvi não atrapalhar a cena e fui explorar o alto do Jardim, quando me deparei com uma pequena torre.

 

Mais do que curiosa, abri sua porta e fui subindo a estreita escada em espiral para chegar ao topo – e descobrir o que havia ali. Tamanha foi a minha surpresa quando, lá no alto, uma pequena porta se abriu para um pequeno jardim suspenso! Eu não podia acreditar. A vista lá de cima era linda, e bem quando eu saia da torre para o gramado, o sol estava se pondo, dando ao céu um tom alaranjado emocionante.

 

Sim, eu estava ali sozinha – o que tornava tudo ainda mais interessante: será que todo mundo que visita o Giardino Giusti, sobe a tal torre e descobre o jardim? - mas me deparar com aquele jardim foi tão inesperado (para mim. Talvez todos soubessem da sua existência, menos eu. Porém, não quero estragar minha fantasia de criança que cresceu assistindo ao filme “O Jardim Secreto”), que compensou a falta de um amor ao meu lado. Aliás, transbordei de amor pelo sol poente, pelo jardim, pela natureza, por Verona e pela Itália. Já quero voltar – com ou sem alguém ao meu lado.

 

 

MY SECRET GARDEN

 

After four months in Italy, and after listening to several people insisting that I had to go to Verona, I finally gave the plunge. Not that I didn´t want to go – obviously I dreamed about visiting the so-famous city of Romeo and Juliet (play that I have read at least three times) – but I didn´t want to go alone, if you know what I mean.

 

Where is the prince charming supposed to invite me – not only that, to insist – to take me visiting one of the world´s most romantic city? That shows love and affection and makes me feel special? I don´t know. I didn´t meet him where I live, and neither in Italy. Because of that, I resigned to go by myself – not without trying to boycott myself oversleeping and losing the first train.

 

I passed through Porta Nuova, Basilica di San Zeno Maggiore, Arena di Verona, through Castelvecchio, the bridge of Caltelvecchio, the Duomo di Verona. I visited the Piazza Erbe, Piazza dei Signori, went up in the tower of Lamberti (the view of the city from the top is worth it)… When there was nothing else to do at the surroundings, I gave up. I went to visit the famous house of Juliet.

 

You see, I know that nobody knows if Juliet really existed, much less if that was the house that inspired Shakespeare. The fact is that couples from the entire world go there to stick letters and post-its with vows of love for each other, and hang padlocks representing the love that will be forever locked in their hearts. What I was supposed to do there? Touch Juliet´s breast and ask for more luck in love? Leave a letter begging for somebody that fills me with affection? It was exactly what I did – excepting the letter part, but I mentally recited the desire, at least (more than that would be too much humiliation).

 

It was still early, so I decided to cross the Ádige river to see the view from Castel San Pietro – and what a view! As it was winter, the sun was already setting, and I got thrilled with the view of roofs and towers from Verona illuminated by the golden light.  When I was getting down the slope to get back from the castle, I saw a sign indicating the Giardino Giusti to the left. It was almost time to get my train back to Milan, but I thought I would have some more sunny time and didn´t want to waste it. The train I could change, anyway.

 

There I was, seeing the garden and making a lot of selfies at the “golden hour” with the green vegetation around me, while near me was just a couple, sitting together beneath the statues, she on his lap, kissing each other. I decided not to interrupt the scene e went to explore the high parts of the garden, when I came across a little tower.

 

More than curious, I opened its door e started climbing the narrow spiral staircase to get to the top – and find out what was there. Imagine my surprise when, up there, a little door opened to a small hanging garden! I couldn´t believe it. The view up there was beautiful, and when I was leaving the tower to the lawn, the sun was setting, giving the sky a thrilling orange tone.

 

Yes, I was alone there – what was making everything more interesting: does everybody that visits Verona go up at that tower and discover the garden? – but coming across that lawn was so unexpected (to me. Maybe everybody else knew about its existence, except me. In any case, I don´t want to ruin my child fantasy of someone who grew up watching “The Secret Garden” movie), that made up for the lack of a love with me. Moreover, I overflowed love for the sunset, the garden, the nature, Verona and Italy. I lost my train latter that day, but I still didn´t lose the desire to go back to Italy – with or without someone by my side.

 

 

 

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