TRANSFORMANDO A DOR EM ARTE

March 22, 2019

 

Em um chuvoso domingo de abril de 2014, ao pegar meu celular em mãos ao final da tarde – pois eu estava na casa de lago dos meus pais, com minha família, e nada atenta à tecnologia – vejo na tela a notificação de várias ligações perdidas de uma amiga minha. Foi a segunda vez que isso aconteceu enquanto eu estava lá, e de imediato já me veio um pressentimento ruim. Da primeira vez, a notícia recebida havia sido péssima.

 

Dessa vez não foi diferente. Retornei a ligação para minha amiga, e ela me contou que a mãe de uma grande amiga nossa havia falecido naquele dia pela manhã. Como assim? Ao que eu sabia ela estava bem de saúde. Foi um acidente? “Não, foi suicídio”. Eu não podia acreditar... Eu achei que ela estivesse bem de saúde, como, imagino eu, todas as outras pessoas que com ela conviviam. Não consigo nem imaginar como foi para os familiares fazerem a descoberta desse ato, ou receber essa triste notícia.

 

Não soube o que fazer. Fiquei paralisada, olhando para o celular, não sei por quanto tempo. E ainda hoje, mesmo tendo passado anos, tendo tido oportunidades de conversar com a família, e muitas de conversar com a minha amiga, sua filha, essa história ainda me deixa atônita. Ninguém nos prepara para lidar com isso. Nem com a morte, e muito menos com o suicídio.

 

Mas por incrível que pareça, passados os primeiros meses de muito sofrimento, minha amiga – sua filha – começou a dedicar-se a atividades esportivas como forma de mudar o foco. Ocupar a cabeça e o corpo com outra coisa que não fosse a dor da perda. Ela começou a praticar corrida, e depois crossfit. Ainda hoje se dedica às duas modalidades com afinco, o que me faz sempre admirar sua determinação.

 

Porém, foi através da arte que ela focou na dor, e a ressignificou. Ao invés de evitar pensar nela e senti-la, ela foi capaz de produzir ilustrações lindíssimas inspiradas naquela história que tanto nos machucou – e à sua família mais ainda. Belíssimos desenhos de mulheres desconfiguradas, com órgãos, ossos e veias expostos, revestidas de escamas ou com chifres e caveiras animais sobre si... Não poderia ser mais chocante, e ao mesmo tempo mais delicado e feminino.

 

Minha amiga sempre foi uma grande artista. Ao longo dos meus últimos treze anos pude observar seu talento de perto. Nunca lhe faltou criatividade, habilidade e um grande senso estético. Desde que a conheço, a vi criar as mais inovadoras e lindas coleções de vestuário. Ela foi finalista inclusive de concursos internacionais na área de moda.  Mas nada que ela já tenha produzido se compara com sua “arte visceral”, como ela chamou. Nada é tão carregado de sentimento e emoção como suas ilustrações.

 

Dá pra sentir na pele. Machuca, e ao mesmo tempo acaricia. Causa estranhamento, mas é um chamado à contemplação. Arrepia, sem você saber se é de medo ou de entusiasmo. É triste, e é colorido. É doloroso, mas é bonito. Belíssimo. Como ela. Que a cada dia ganha mais um pouco da minha admiração e respeito. Não só pela artista que é, como pela pessoa que se tornou. Um exemplo de força e amor. A dor continua dentro dela, como permanece visível em suas ilustrações, mas a beleza da sua alma não transparece apenas em sua arte, como em cada gesto e palavra sua: forte, mas amorosa. Obrigada, mano.

 

 

Transforming Pain in Art

 

On a rainy Sunday in April 2014, as I took my cell phone in hand by the end of the afternoon - since I was at my parents' lake house, with my family, and not at all aware of technology - I saw on the screen the notification of several missed calls from a friend of mine. It was the second time this happened while I was there, and immediately a bad feeling came to me. At the first time, the news received had been very bad.

 

This time it was no different. I returned the call to my friend, and she told me that the mother of a great friend of ours had died that day in the morning. How? To my knowledge she was in good health. It was an accident? "No, it was suicide." I could not believe it ... I thought she was in good health, like, I imagine, all the other people around her. I cannot even imagine how it was for family members to discover this act, or to receive this sad news.

 

I didn´t know what to do. I froze, looking at my cell phone, don´t know for how long. And even today, years later, having had opportunities to talk with the family, and many to talk to my friend, her daughter, this story still astonishes me. Nobody prepares us to deal with it. Neither with death, let alone suicide.

 

But incredible as it may seem, after the first few months of much suffering, my friend - her daughter - began to devote herself to sport activities as a way to change the focus. To occupy her mind and body with something other than the pain of loss. She started practicing running, and then crossfit. Even today she is dedicated to the two modalities with determination, which always makes me admire her willpower.

 

However, it was through the art that she focused on the pain, and gave it a new meaning. Instead of avoiding thinking about it and feeling it, she was able to produce beautiful illustrations inspired by that story that hurt us so much - and her family even more. Beautiful illustrations of deconfigured women with exposed organs, bones and veins, coated with fish scales or with horns and animal skulls on them... It could not be more shocking, and at the same time more delicate and feminine.

 

My friend has always been a great artist. Over the last thirteen years I have been able to observe her talent closely. She never lacked creativity, skill and a great aesthetic sense. As far as I know, I saw her creating the most innovative and beautiful collections of clothing. She had also been a finalist of an international fashion contest. But nothing that she already done compares with her "visceral art”, as she called it. Nothing is so filled with feeling and emotion as her illustrations.

 

You can feel it on your skin. It hurts, and at the same time it caresses. It causes strangeness, but it is a call to contemplation. It shivers, without you knowing if it is of fear or enthusiasm. It's sad, and it's colorful. It's painful, but it's beautiful. Stunning. As she is. Whom every day gains a little more of my admiration and respect. Not only because the artist she is, but also because of the person she has become. An example of strength and love. The pain remains within her, as it remains visible in her illustrations, but the beauty of her soul does not only appear in her art, but in every gesture and word she says: strong, but loving. Thanks, mano.

 

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