ACREDITE

April 15, 2019

Não lembro muito bem quando foi, mas acredito que fosse março de 2013. Eu estava visitando meu pais em sua casa no lago, quando, no sábado à noite, recebemos uma ligação no único celular que tinha sinal por lá, na época. A chamada era de uma amiga minha. Quando meu pai me passou o aparelho e a cumprimentei, toda feliz, foi como se me jogassem um balde água fria: o seu “amiga” do outro lado da linha foi tão triste que deu pra sentir. O que ela diria a seguir com certeza não seria diferente.

 

Ela estava num carro, com outras pessoas que não me recordo quem eram, levando uma outra amiga nossa para o velório do próprio namorado. “Como assim, ele morreu? Eu nem sabia que ela estava namorando” foi a primeira coisa que me passou pela cabeça. Em poucos segundos calada, consegui lembrar que sim, nossa amiga havia comentado sobre alguém que tinha conhecido e gostado muito, eu é que não estava a par de como as coisas haviam evoluído. E ali estava ela: indo para o velório dele. Tão depressa.

 

Perder alguém que você ama deve ser a coisa mais triste que pode acontecer com alguém, independentemente de quem seja. Se for alguém realmente muito próximo, imagino que a dor seja incomparável. Mas imagina perder alguém no auge da paixão, quando existe toda uma promessa de um futuro feliz juntos.

 

Doeu em mim, em todas nós – as amigas, na sua família... Foi um pesar não só pela morte de alguém tão jovem, que drasticamente perdeu a vida em um acidente de carro. Foi também uma dor por aquele amor que não frutificaria, por todos os sonhos que não seriam vividos, por todos os planos que não seriam realizados. Pelo sentimento que morreu junto com ele.

 

Cerca de um mês após o falecimento do seu namorado, fomos todas – nosso grupinho de quatro amigas – visita-la em sua casa, para passar um fim de semana juntas, e tentar dar algum apoio. Como eu morava na cidade mais próxima, fui a primeira a chegar. Ouvi ela me contar várias histórias sobre ele: demonstrações de carinho e visitas inesperadas. Vi presentes que ele tinha dado a ela sem data comemorativa... Li enormes pilhas de conversas de MSN, trocadas pelos dois, impressas e apostiladas. Eu nunca fui boa em falar a coisa certa – sempre acabo fazendo piada de tudo – mas naquele dia eu realmente estava perdida. Eu só conseguia ficar triste junto com ela.

 

Mais alguns meses se passaram e ela estava começando a voltar à vida normal. Uma marca dessa transição foi a tatuagem que ela fez em homenagem a ele, que diz “believe” (acredite, em inglês). Uma só palavra, mas que quer dizer tanto: “acredite, ele ainda está ai” – na sua memória, no seu coração. Lembro de ela me contar que estava conversando com um rapaz quando um carro igual ao dele passou buzinando e outras histórias assim, que pareciam realmente ser sinais de que ele estava cuidando dela de algum lugar. Espiritas foram consultados, e parecia sim que não era ao acaso. Acreditamos nisso naquela época, e continuamos acreditando até hoje.

 

Minha amiga agora está casada e tem uma filha coisa mais fofa de dois aninhos. Ela está feliz. Alguma dúvida de que ele cuida dela lá de cima? Não sei no que você acredita, mas posso dizer que é bom acreditar em alguma coisa. Eu acredito que ela precisava de um anjo, por isso conheceu ele antes que falecesse. Eu acredito que ninguém passa pela nossa vida em vão: toda alma que cruza com a nossa tem alguma razão para estar ali. Afinal de contas, se há mais de 7 bilhões de pessoas no planeta, porque a gente conhece logo quem a gente conhece? “Acredite”, nada é por acaso.

 

 

Believe

 

I don´t remember very well when it was, but I believe it was March 2013. I was visiting my parents at their lake house when, on Saturday night, we received a call on the only cell phone that had a signal there, at the time. The call was from a friend of mine. When my father gave me the device and I answered it, all happy, it was like throwing cold water: her "friend" on the other side of the line was so sad that you could feel it. What she would say next would certainly not be any different.

 

She was in a car, with other people I don´t remember who they were, taking another friend of ours to her boyfriend's funeral. "What do you mean, he died? I did not even know she was dating” was the first thing that came to my mind. After a few seconds in silence, I could remember that yes, our friend had told us about someone she had known and liked a lot, it was me that was not aware of how things had evolved. And there she was: going to his funeral. All of a sudden.

 

Losing someone you love must be the saddest thing that can happen to anyone, regardless of who s/he is. If you are really close, I imagine the pain to be incomparable. But imagine losing someone at the height of passion, when there is a whole promise of a happy future together.

 

It hurt me, all of us – her friends, her family... It was a grief not only for the death of someone so young, who drastically lost his life in a car accident. It was also a pain from that love that would not bear fruit, from all the dreams that would not be lived, from all the plans that would not be realized. From the feeling that died along with him.

 

About a month after her boyfriend's death, we all went - our little group of four friends - to visit her at her house, to spend a weekend together, and try to give some support. Since I lived in the nearest town, I was the first to arrive. I heard her tell me several stories about him: shows of affection and unexpected visits. I saw gifts he had given her with no commemorative date... I read huge piles of MSN conversations, exchanged by both of them, printed and apostilled. I was never good at saying the right thing - I always end up making fun of everything - but that day I was completely lost. I could only feel sad with her.

 

A few more months passed and she was beginning to return to normal life. One mark of this transition was the tattoo she made in his honor, which says "believe”. One word, but that means so much: "Believe, he's still there" - in your memory, in your heart. I remember her telling me that she was talking to a boy when a car like his honked and other stories like that, which really seemed to be signs that he was taking care of her from somewhere. Spiritists were consulted, and it seemed like it was not random. We believed that at the time, and we continue to believe it today.

 

My friend is married now, and she has a sweet two years old daughter. She is happy. Any doubt that he takes care of her from up there? I don´t know what you believe in, but I can say that it's better to believe in something. I believe she needed an angel, that´s why she met him before he passed away. I believe that no one goes through our life in vain: every soul that crosses with ours has some reason to be there. After all, if there are more than 7 billion people on the planet, why do we know exactly who we know? Believe me, nothing is by chance.

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

  • Facebook Patricia Ceccato
  • Twitter Patricia Ceccato
  • Pinterest Patricia Ceccato
  • Instagram Patricia Ceccato
FOLLOW ME
SEARCH BY TAGS
FEATURED POSTS