O DIA EM QUE FIQUEI VELHA

May 6, 2019

Anteontem eu tinha uma feijoada para ir com algumas amigas em Balneário Camboriu. Como moramos em Floripa, precisaríamos enfrentar pouco mais de uma hora de viagem até lá – coisa pouca. Porém, na sexta à noite, fui à inauguração da loja de uma amiga, e o que era para ser apenas um social, virou uma grande festa – e a gente se passou no vinho. Resumo da ópera: mal dormi, e acordei não apenas cansada, com sono, como ainda por cima de ressaca para viajar.

 

Fui de Florianópolis a Balneário bebendo água e um pouco enjoada – mas sobrevivi sem passar mal até chegar lá. Após deixar as malas no hotel, fomos, já atrasadas, para a tal feijoada. Mesmo tendo tomado café da manhã, a essa altura do campeonato eu já estava morta de fome novamente. Eu tenho o hábito de pensar que comida é a solução para todos os problemas. Fiquei me queixando que estava mal e precisava comer para a qualquer um que falasse comigo.

 

Finalmente serviram a feijoada e comi uma bela pratada. O que aconteceu? Fiquei estufada. Passei a me queixar que havia comido demais e estava com desconforto abdominal. Todo mundo me oferecia bebida e convidava para dançar – estava tocando uma dupla sertaneja – e tudo que eu conseguia fazer era ficar imóvel sentada na cadeira. Ao menos a dor de cabeça havia passado.

 

Mais tarde, a dupla sertaneja deu lugar a uma que tocava pop-rock. Logo no início eles já tocaram uma música do Offspring – soltei um “essa é do meu tempo”, uma vez que a música havia marcado minha adolescência. Deu 22 horas, a festa acabou e voltamos para o hotel trocar de roupa e nos arrumarmos para sair. Porém, eu, que não havia bebido praticamente nada o dia todo por conta da ressaca e do desconforto abdominal, dei a belíssima ideia de irmos na chuva comprar vinho.

 

Pegamos um baita temporal. Voltamos para o hotel encharcadas – e sem vinho porque a adega próxima ao hotel já estava fechada. Não quis mais sair, só conseguia pensar em um banho quente e cama. Coloquei despertar às 9:30hs para não perder o café da manhã do hotel, que ia até às 10:00, e dormi. Adivinha a que horas acordei? Às 7:00! Me sentindo minha própria mãe, que acorda cedo a qualquer dia, amaldiçoei a minha idade. Mas ao menos cheguei ao refeitório com tempo de sobra para o café, e sem ressaca.

 

Conversando com as minhas amigas, me dei conta que eu havia ficado velha. Não me lembrava de alguma vez ter me queixado tanto de tanta coisa. Saudade do tempo em que eu bebia e não tinha ressaca, que dormia pouco e acordava pronta pra outra, que comia um monte e não ficava mal, que conseguia beber dois dias seguidos, e dormir até tarde. E dormir bem, e acordar sem dores, e passar o dia sem reclamar de nada. Bom, não consigo voltar a ser mais jovem, mas parar de reclamar eu posso, e foi essa a promessa que fiz a elas. Estou mais velha, sim, mas serei uma velha de espírito jovem, e definitivamente, não a velha rabugenta que fui sábado. Prometo!

 

 

The Day I Got Old

 

The day before yesterday I had a feijoada* to attend with some friends in Balneário Camboriu. Since we live in Floripa, we would have to face a little more than an hour's travel there - a small thing. But on Friday night, I went to the opening of a friend's shop, and what was meant to be just a social event turned out to be a big party - and we had too much wine. Summary of the opera: I barely slept, and woke up not only tired, sleepy, but also with a hangover to travel.

 

I went from Florianópolis to Balneário, drinking water and a little queasy - but I survived without throwing up until I got there. After leaving the suitcases at the hotel, we went already late for the feijoada. Even though I had breakfast, by that time I was already starving. I have the habit of thinking that food is the solution for all problems. I complained that I was ill and needed to eat for anyone who spoke to me.

 

Finally they served the feijoada and I ate a beautiful plate. What happened? I got stuffed. I complained that I had eaten too much and had abdominal discomfort. Everyone offered me a drink and invited me to dance- it was playing a country duo - and all I could do was seat still in the chair. At least the headache had passed.

 

Later, the country duo gave way to one that played pop-rock. Early on they played an Offspring song - I said a "this is from my time" since the song had marked my teenage years. It became 22 hours, the party finished, and we went back to the hotel to change clothes and get ready to go out. But I, who had practically drunk nothing all day because of the hangover and abdominal discomfort, gave the beautiful idea of going in the rain to buy wine.

 

We got in the middle of a storm. We returned to the hotel drenched - and without any wine, because the wine cellar next to the hotel was already closed. I did not want to go out anymore, I could only think of a warm bath and bed. I set up the alarm for 9:30am so I wouldn´t miss the hotel's breakfast, which was until 10:00, and slept. Guess what time I woke up? At 7:00! Feeling my own mother, who wakes up early any day, I cursed my age. But at least I got to the cafeteria with plenty of time for coffee, and no hangover.

 

Talking to my friends, I realized that I had grown old. I did not remember ever complaining about so much. Longing for the time when I drank and had no hangover, I slept little and woke up ready for another, when ate a lot and did not feel bad, could drink two days in a row, and sleep late. And sleep well, and wake up without pain, and spend the day without complaining about anything. Well, I cannot get back to being younger, but to stop complaining I can, and that's the promise I made to them. I'm older, yes, but I'm going to be a young-spirited old woman, and definitely not the grumpy old woman I was Saturday. Promise!

 

*Famous Brazilian dish made of beans and meat.

 

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